terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Publicação do livro: Golpe de Estado e agenda de guerra no Brasil



Prezados (as) amigos (as):

● Organizei um livro tratando da evolução do golpe de Estado, no período 2012/2018. Está em fase de revisão e projeto gráfico, vai ficar pronto até final de março;
● Em princípio o título será Golpe de Estado e agenda de guerra no Brasil.  É uma seleção dos artigos que elaborei entre 2012/2018 (até fevereiro/2018). O tema gravita em torno de Conjuntura, mas  mais especialmente na construção do golpe de Estado em curso no Brasil;
● Acredito que o livro esteja bastante interessante, pois temos ali a trajetória e aspectos da construção do golpe, especialmente dos pontos de vistas econômico e político;
●Para financiar a impressão vou precisar vender exemplares antecipadamente. Ainda não tenho o orçamento definitivo, porque o livro está nas fases de revisão e diagramação. Mas custará no máximo R$ 40,00 (com descontos para aquisições em maior número);
● Quem tiver interesse de adquirir um ou mais exemplares do livro, me contate, pois preciso viabilizar o seu financiamento. Na primeira quinzena de abril, no mais tardar, estarei entregando a obra. E-mail para contato: zealvaro@dieese.org.br
Conta para depósito: CC Agência do Banco do Brasil: 4783-X
CC: 107.355-9

Abraços. 

José Álvaro de Lima Cardoso (autor).

domingo, 18 de fevereiro de 2018

A segunda etapa do golpe político

Por Luis Nassif, no Jornal GGN, Do blog do Miro.

Peça 1 – a falsa legalidade

A ideia de que a intervenção no Rio é democrática, porque segue os preceitos da Constituição é tão falsa quanta a da legalidade do impeachment.

Segundo o Ministro da Justiça Torquato Jardim (que foi jogado para escanteio nesse planejamento) "é importante repetir que a intervenção na segurança pública do Estado do Rio de Janeiro cumpre estritamente o ordenamento jurídico brasileiro e servirá para aperfeiçoar a democracia no nosso País."

Michel Temer decretou uma intervenção no Rio de Janeiro. Mas não se contentou com uma intervenção qualquer. Foi uma intervenção militar com um interventor das Forças Armadas, respondendo diretamente ao Presidente da República.

Não há sinais estatísticos de uma situação fora de controle.

Entrevistada pelo Estadão, a diretora presidente do Instituto de Segurança do Rio (ISP), Joana Monteiro, informou que os dados de segurança mostram que não houve uma onda de violência atípica (clique aqui),

Segundo ela, “foram registradas 5.865 ocorrências policiais no total no Rio, entre os dias 9 e 14 de fevereiro, enquanto no carnaval do ano passado (quando a Polícia Civil ainda estava em greve), foram 5.773. Em 2016, 9.016 ocorrências foram registradas e, em 2015, computaram-se no total 9.062”.

Esse mesmo sentimento foi manifestado pelo próprio interventor, General Walter Braga Neto, que atribuiu o clima de fim de mundo aos excessos da mídia (clique aqui).

Peça 2 – o papel da Globo

Temer não é dado a jogadas de risco. É figura menor. Assim como no impeachment, sua adesão ao golpe foi estimulada diuturnamente pela cobertura de carnaval da Globo, em tom francamente alarmista. Em cima desse quadro, um grupo de assessores tratou de convencê-lo a endossar o golpe.

Fica claro que, daqui para diante, o novo fantasma nacional será a violência do crime organizado.

Agora à noite, a comentarista Natuza Nery, também da GloboNews, falava de um clima de violência que ameaça envolver o país inteiro. E atribuiu ao fracasso da política.

É fácil entender as estratégias da Globo porque há sempre um alinhamento total de seus comentaristas com as ordens que vêm de cima. Agora à noite, além da unanimidade de comentaristas da GloboNews, insistiu-se no clima de fim de mundo para o Rio, com a seleção de entrevistados endossando as medidas.

Como não houve pontos fora da curva entre os comentaristas, reafirma-se a suspeita de que as medidas já eram de conhecimento da Globo, que, assim, teve tempo de alinhar seus soldados – ao contrário do que ocorreu nos primeiros momentos das delações da JBS.

Trata-se, portanto, de um novo golpe, com papel central das Organizações Globo. Carregou no noticiário, criou um quadro de escândalo, deu ênfase a violências urbanas deploráveis, mas antigas, visando criar o clima de pavor. Da mesma maneira como cobriu arrastões armados, no governo Leonel Brizola.

Peça 3 – a luta contra o crime

Para que o golpe se sustente, há a necessidade de manter um clima permanente de catarse.

Há dois caminhos delineados.

O primeiro, de forte apelo popular, de intervenção no orçamento do Rio de Janeiro, reduzindo as benesses do Judiciário e outros setores privilegiados. Essa possibilidade foi aventada por autoridade de Brasília que tem sido consultada frequentemente por Michel Temer.

A segunda é partir para a luta aberta contra organizações criminosas, visando elevar a temperatura ainda mais.

São Paulo já tem experiência dessa maluquice, quando, em 2006, o governo Geraldo Alckmin, e um Secretário de Segurança pirado, Saulo Queiroz, decretaram guerra contra o PCC.

Houve a invasão da cidade pelo PCC, seguido de um massacre da PM, matando indiscriminadamente jovens de periferia sem antecedentes criminais. Foram mais de 600 mortes em uma semana.

O que as Forças Armadas poderiam fazer no Rio? Montar barricadas, trincheiras? Invadir casas? As organizações criminosas não estão situadas em territórios próprios, como na guerra convencional. Estão misturados às pessoas, aos cidadãos comuns, vítimas deles. O que ocorreria com esses cidadãos, em caso de confrontos diretos entre Exército e organizações criminosas?

Peça 4 – os fatores de risco

Nos próximos dias, a Globo vai ampliar o discurso de caos na segurança, visando legitimar a segunda etapa do golpe.

Por outro lado, as Forças Armadas foram jogadas no meio da fogueira. O fracasso da operação será o fracasso da intervenção. Qual seria a reação das Forças Armadas? Assimilar o desgaste ou exigir ampliação da sua interferência?

A tomada de decisão, logo após o Carnaval, teve um objetivo adicional: impedir o desfile das campeãs, com os carros alegóricos da vice-campeã Paraíso da Tuiuti, com um vampiro representando Temer.

A aposta de altíssimo risco do imperialismo na Venezuela.



                                                                         *José Álvaro de Lima Cardoso.
     No início de fevereiro, o secretário de Estado dos EUA, Rex Tillerson, em visita a alguns países da América Latina, apontou a “necessidade” de um golpe militar na Venezuela. Segundo ele “na história da Venezuela, e dos países sul-americanos, às vezes os militares são o agente da mudança quando as coisas estão ruins e a liderança não serve ao povo”. Essa foi a manifestação de um secretário de Estado do país que comanda o golpe em curso no Brasil, e que vem perpetrando golpes mundo afora, com ou sem a ajuda de militares.
     Os EUA estão em fase de legitimar internacionalmente a intervenção na Venezuela. A declaração do secretário não foi ato isolado, há uma concatenação de ações e declarações públicas, com o objetivo de vender a ideia que é a intervenção se faz necessária, por uma questão humanitária, para garantir o “bem-estar” do povo venezuelano. Em 2017, Trump tinha feito a mesma referência, sobre a necessidade de uma intervenção militar na Venezuela. A estratégia de Segurança Nacional dos EUA para 2018, menciona diretamente a “necessidade e a urgência” de propiciar uma mudança de regime na Venezuela e Cuba. Os chamados formadores de opinião (think tanks, blogs, etc.) nos EUA já discutem abertamente a hipótese de intervenção militar, inclusive, sobre qual seria a melhor estratégia a ser desencadeada. A ideia é naturalizar uma intervenção como algo imprescindível e necessário, tarefa para a qual não faltam sabujos na América Latina. Já se levantou a hipótese, por exemplo, das forças armadas estadunidense realizarem um ataque aéreo, visando levar à divisão interna nas forças armadas venezuelanas, com consequente golpe dos militares sobre o governo Maduro.
     A única certeza que se pode ter é que os EUA têm planos definidos para derrubar o governo democraticamente eleito da Venezuela. Os EUA são especialistas em golpes de Estado, invasões, quarteladas, assassinatos e tudo que acharem que for preciso, para defender os interesses do grande capital norte-americano. O interesse dos EUA no ataque à Venezuela nada tem de humanitário, é um ataque contra um povo soberano, visando se apropriar de suas riquezas e impor um governo títere. O que move esse país imperialista são os mesmos interesses que levaram à perpetração do golpe em curso no Brasil: petróleo, água, biodiversidade, Amazônia, nióbio, coltan[1] e outros minerais. Os EUA e a Europa enfrentam, por exemplo, grave problema da falta de água, a maioria dos rios dos EUA e do Velho Continente estão contaminados. Como se sabe, não existe país hegemônico no mundo com escassez de um bem tão fundamental como a água.
     No Brasil, para dar o golpe, os EUA precisaram apenas montar uma operação que desmoralizasse a Petrobrás, e dizimasse parte da construção civil, fechando empresas e prendendo seus executivos, em nome da farsa do combate à corrupção. Apesar das denúncias terem iniciado em 2014, apenas agora estão mais claras as conexões internacionais da Lava Jato e suas inúmeras ilegalidades. De uma hora para outra apareceu um juiz de primeira instância, com um volume enorme de informações sobre a Petrobrás, contando com o apoio e ampla cobertura da mídia. A Lava Jato foi montada com base no mesmo receituário utilizado na chamadas Primaveras Árabes, que desestabilizou governos do Oriente Médio: acesso a um volume enorme de informações sobre a Petrobrás (possivelmente fornecido pelas organizações de espionagem dos EUA), montagem de um esquema sofisticado de comunicação, com amplo apoio da grande mídia, ecoando com força as denúncias de corrupção, e de forma sempre seletiva.
     No caso da Venezuela a questão é diferente. A agressão imperialista tem sofrido uma forte resistência do governo, e das forças sociais mobilizadas, por isso estão pensando em intervenção militar. Uma intervenção militar deverá enfrentar uma firme reação das forças armadas e da população, que vem sendo preparada pelos militares para resistir. É difícil imaginar que os EUA derrubariam um governo eleito, com apoio das forças armadas, sem forte reação. Uma das possibilidades colocadas é de uma operação envolvendo exércitos latino-americanos, inclusive do Brasil. Como a reação do povo venezuelano tende a ser vigorosa, a operação iria se prolongar e exigir a presença de milhares de soldados invasores, para os EUA terem êxito na empreitada.
     O envolvimento dos vizinhos sul americanos no embate da Venezuela é inevitável, incluindo, claro, o aspecto militar. Representantes de governos pró-imperialistas, na América do Sul, orientados pelos EUA, não hesitam em se posicionar ao lado dos agressores. O governo da Colômbia, por exemplo, tem feito ataques recorrentes contra o governo de Maduro, claramente uma estratégia preparatória de uma eventual invasão militar. Não falta idiotas para acreditar nas mais falsas versões dos acontecimentos na Venezuela. Alguns “bocas alugadas” do imperialismo têm, por exemplo, repetido que Nicolás Maduro é o Saddam Hussein da América Latina, o que revela até onde chegam as intenções do império na Venezuela.
     A mídia a serviço dos EUA vem reforçando a ideia de que a Venezuela atravessa uma grande crise humanitária, traduzida numa suposta “migração em massa” de venezuelanos, principalmente na direção da Colômbia. O objetivo é bombardear a opinião pública internacional, de forma a justificar qualquer coisa, inclusive, um ataque militar de países vizinhos, comandados pelos EUA. São as estratégias de “guerra híbrida”, usadas em larga escala no período recente para a execução do golpe no Brasil. Uma das vertentes da tática dos golpistas a serviço dos EUA é deslegitimar as eleições ocorridas na Venezuela nos últimos tempos, qualificando-as de ilegais e ilegítimas. É fácil de entender a razão dessa postura: as eleições deram folgadas vitórias ao governo Maduro, e colocaram a oposição a serviço dos EUA, no seu verdadeiro lugar.
     Há inúmeras indicações de que os agressores estão pensando numa operação militar rápida, apoiada pelo chamado Grupo de Lima, formado por doze países do continente, um grupo claramente articulado pelo imperialismo para, dentre outras coisas, envenenar a opinião pública contra o governo da Venezuela.  Este grupo fez uma reunião em 13 de fevereiro, para discutir ações contra a Venezuela. Todo tipo de iniquidade e perversidade está envolvido neste processo de ataque aos direitos elementares do povo venezuelano, de auto determinação e independência. Mas o imperialismo, em função da grave crise do sistema capitalista, resolveu fazer uma aposta de alto risco na Venezuela. Se ganhar, pode levar a região para um período de insegurança e instabilidade; se perder, irá agravar ainda mais a crise do imperialismo no mundo.   
                                                                                                                                  *Economista.


[1] Mineral composto principalmente por outros dois minerais, columbite e tantalite. Da columbite é possível extrair o nióbio, e da tantalite extrai-se o tântalo. O Coltan. é muito utilizado na maioria dos eletrônicos portáteis, fundamentais para o avanço de todos os tipos de tecnologias.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Fuz, Huck, FHC e os homens sem honra

https://l.facebook.com/l.php?u=https%3A%2F%2Fjornalggn.com.br%2Fnoticia%2Ffux-huck-fhc-e-os-homens-sem-honra-por-aldo-fornazieri&h=ATPbYF2AZWANVnWHdYvYzTKqfdbrU0aDfFFQwbqOt5jO08v7esklYYAqCrSbrjMQS4qNAY05LRjfKPHyq2wSVqkDBH7qfCaV33M2TkTsyP3DB6cdyO73-DMVd7hX_anb_xbXsa5iRW8fdlNSWxaMSPnmmcqGxny9bh3D9oADu_oJKSezbfSgak2sWEo8N9bvy5kalmqrWt7V0h9Y3pOzqEEu9mNY94yKmiS-pUl-FKNGSvsUPaA5sIZatKDkuGGP7vojsoHE

Corrupção: quem o Judiciário protege

Por Antonio Martins, no site Outras Palavras. Transcrito no blog do Miro.
Em 22 de setembro de 2016, o ex-ministro Guido Mantega viveu um pesadelo. Às 7 da manhã, ele acompanhava sua esposa, Eliane Berger, em internamento para cirurgia contra um câncer (ela faleceu 14 meses depois). Foi surpreendido por uma ordem de prisão preventiva, decretada pelo juiz Sérgio Moro. Voltou às pressas para casa, onde a Polícia Federal o aguardava desde às seis, acompanhada de uma multidão de repórteres. “Faz as malas, reúne as coisas”, disse o delegado que chefiava a operação. Horas depois, diante da repercussão negativa provocada pela brutalidade do ato, Moro revogou a prisão. Um único fato havia servido de pretexto para decretá-la. Preso alguns dias antes, o empresário Eike Batista dissera vagamente – sem jamais oficializar a declaração ou oferecer circunstâncias – que havia pago R$ 5 milhões a Mantega, para obter vantagens do governo federal.

O caso do ex-ministro é um entre dezenas. Entre 2015 e 2017, as chamadas “delações premiadas”, oficializadas ou não, dominaram o noticiário pobre do velho jornalismo brasileiro. Os vazamentos de informação eram permanentes. Interessados em notoriedade, procuradores e policiais antecipavam para jornalistas o suposto conteúdo das denúncias. Repórteres e editores aéticos divulgavam as informações com estardalhaço, sem a menor preocupação em apurar sua veracidade. O país acreditou estar vivendo uma “cruzada contra a corrupção”. Os alvos principais eram políticos da esquerda. Mas de repente, tudo mudou – exatamente no momento em que vieram à tona as delações da Odebrecht.

Faz exatamente um ano – foi em 30/1/2017 – que a ministra Cármen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal, homologou as delações, tomadas e negociadas durante meses, de 77 executivos da maior empreiteira do Brasil. Eles revelaram o pagamento de propinas a centenas de políticos. Destes, 108, contra os quais há evidências mais graves, foram incluídos na chamada lista de Fachin – em referência ao ministro do STF encarregado, à época, de relatar a Operação Lava Jato. Retrato da promiscuidade das instituições brasileiras com o grande poder econômico, ela inclui personalidades do PT. Mas traz também outras figuras. Por exemplo, Michel Temer, que teria recebido 10 milhões de reais. José Serra, o “Vampiro” ou “Vizinho”, com R$ 36 milhões, em quatro campanhas distintas. Aécio Neves, o “Mineirinho” – um recordista, enquadrado em cinco inquéritos. Eliseu Padilha, o “Fodão”, principal articulador político do governo, hoje empenhado em liquidar a Previdência pública. Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, o Inca, envolvido em corrupção ativa, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Ao contrário das afirmações feitas por Eike Batista contra Mantega, aqui não há falas vagas, mas acusações circunstanciadas. Os 77 executivos detalharam o motivo da propina, as condições em que foi paga e em alguns casos as datas dos pagamentos e números das contas receptoras. Mas há exatamente um ano, paira silêncio quase completo na mídia. Sumiram as manchetes bombásticas. Desapareceram os trechos de documentos, destacados pelo Jornal Nacional para causar impacto.

Numa rara matéria a respeito, publicada sem destaque ontem, a Folha reconhece o pior. Não foi apenas a mídia que esqueceu a delação da Odebrecht. O STF, o Ministério Público e a Polícia Federal também parecem ter perdido a memória. Dos inquéritos abertos, 94% estão parados. Ninguém foi preso. Ninguém virou réu. Apenas um político foi denunciado pela Procuradoria Geral da República – o líder do governo no Senado, Romero Jucá. Mesmo assim, Jucá, o Caju da Odebrecht, não tem motivos para perder o sono. A investigação está travada, porque o STF não a libera. Indagado pelos autores da matéria a respeito, o Supremo sequer dignou-se a responder.

Há uma suspeita fundada sobre a razão de todo este corpo mole. Os crimes prescrevem. Veja o que ocorreu na quarta-feira passada, por exemplo. Lula foi condenado em Porto Alegre, pela TRF-4. No mesmo dia, em Brasília, a Procuradora Geral da República, Raquel Dodge, pediu ao STF para arquivar um dos inquéritos em que o senador José Serra é acusado de receber R$ 20 milhões da JBF. O pretexto: Serra tem mais de 70 anos e por isso, a prescrição, que já é curta, ocorre na metade do tempo… Em São Paulo, estão igualmente prestes a prescrever as acusações contra Geraldo Alckmin e o próprio Serra, por recebimento de propina para favorecer a Odebrecht em obras como o Metrô e o Rodoanel.

Ou seja, se o STF, o Ministério Público Federal e a PF continuarem agindo como fazem há um ano, teremos em breve o seguinte cenário: Lula e alguns outros ficarão inelegíveis e poderão ser presos. Mas a Justiça brasileira permitirá que Temer, Serra, Aécio, Alckmin, Rodrigo Maia e centenas de outros políticos, denunciados pela Odebrecht, JBS e outras megaempresas fiquem livres, disputem as eleições e talvez ocupem o Palácio do Planalto.

A posição claramente partidária da Justiça brasileira é uma ameaça à democracia – mas também implica riscos aos próprios privilégios do Judiciário. Setores cada vez mais amplos da opinião pública estão se dando conta da farsa. No sábado, o filósofo Vladimir Safatle, um crítico notório do lulismo, escrevia: “a sanha anticorrupção vai até Lula e termina nele (…). Um país onde Lula é condenado e Temer é presidente e Aécio Neves senador é algo da ordem do escárnio”.

Ou seja, os farsantes podem estar dando um tiro no pé, porque as duas consequências políticas à vista são muito desfavoráveis a ele. A primeira, o próprio Safatle enuncia: se a conciliação, tão tentada por Lula, mostrou-se incapaz de sensibilizar as elites, talvez seja necessário um novo tipo de governos de esquerda – ao estilo jararaca, não mais paz e amor. Segunda consequência, mais específica. O Judiciário está se desmoralizando rapidamente. Muito em breve, precisará entrar na pauta nacional uma vasta reforma deste poder profundamente elitista, perdulário e conservador. Tanto partidarismo de Moro e do TRF-4 quanto o corpo mole na apuração das delações da Odebrecht podem se voltar contra aqueles que os praticam.