terça-feira, 15 de agosto de 2017

Candidatos, tremei!

Artigo do Professor Wanderley Guilherme dos Santos. Transcrito no Conversa Afiada.


Candidatos sempre aparecem; programas de governo é que são elas. A direita alucinada se angustia em busca de alguém capaz de derrotar Lula ou, se a sobrevivência exigir, macular a legislação eleitoral, alterando regras e suprimindo direitos. Não importa, nada resolverá o problema essencial de não ter o que dizer. Depois do vandalismo econômico e social promovido pelos conspiradores do Planalto, o que terá a oferecer o candidato a herdeiro de Michel Temer, Eliseu Padilha, Moreira Franco, Eduardo Cunha, Romero Jucá e Aécio Neves? Prometerão vender o que? Alugar, talvez, a Amazônia ao exército americano, possível invasor da Venezuela? Consertar a caótica urbanização criando passaporte interno? Construir prisões em substituição ao Minha Casa, Minha Vida? Iniciar um Plano Nacional de Água Fria para os sem teto do país? Reduzir o número de funcionários públicos, aumentando as filas nas repartições de serviços, os prazos para processamento de demandas, menos vagas em escolas para menor número de professores? Aumentar o imposto regressivo sobre itens do consumo popular para cobrir a perda de arrecadação com a dispensa do funcionalismo – o único grupo ocupacional com imposto de renda pago na fonte, extraído automaticamente do salário? Qual radiante programa embelezará o continuísmo da direita?
À esquerda, o problema não é agônico, mas exigente. Se não prometer a convocação de plebiscito autorizando o governo a revisar a legislação antisocial, eliminar a insanidade econômica e reparar as brechas abertas na aba militar da soberania nacional, se não for para isso, pode esquecer. A taxa de votos brancos, nulos e de abstenção baterá recordes. Retomar emprego e salário depende de investimento produtivo e circulação de mercadorias a baixo custo. As fontes de investimento são a poupança interna das empresas, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, que a direita alucinada quer reduzir a brechó, e o sistema financeiro. A empresa privada é dona do destino de sua poupança, mas a política do BNDES é responsabilidade do governo. Em acréscimo, cabe a um governo popular estrangular a exploração rentista beneficiando bancos, obrigando-os a prover empréstimos de longo prazo aos empreendedores, grandes e pequenos, com garantia de remuneração razoável fixada pelo mercado, que fingem respeitar, e não com os negócios especulativos que manipulam e controlam.
Aos ladrões apocalípticos, ao jornalismo de conveniência e aos reacionários de carteirinha não restará outra resposta ao programa popular além de pedir socorro ao boi da cara preta da insegurança jurídica. Cabe repetir à exaustão: de insegurança geral é vítima, hoje, a maioria esmagadora da população brasileira, inclusive as senhoras paneleiras e os indignados profissionais liberais, sistemáticos sonegadores do imposto de renda. Essa insegurança irá para o espaço, mas os ladrões, rentistas, sonegadores, chantagistas dos dois lados do balcão, esses, sem dúvida, não terão a menor tranquilidade. É para ter medo, mesmo.

Skaf transformou a Fiesp em um bordel

Por Altamiro Borges, em seu blog.

Na semana passada, o golpista Paulo Skaf foi reeleito presidente da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) pela quarta vez consecutiva. Após alterar de forma autoritária o estatuto da entidade, ele se perpetua no poder graças ao manuseio das polpudas verbas do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) e do Sesi (Serviço Social da Indústria). Caso conclua o seu mandato, ele terá permanecido à frente da Fiesp por 17 anos – período em que transformou a entidade em um bordel de negociatas, em um biombo de desestabilização política do país e num palanque para as suas frustradas pretensões eleitorais.

A longa permanência no poder, porém, começa a gerar descontentamento entre o empresariado paulista. Segundo matéria do Estadão publicada neste domingo (13), alguns industriais têm criticado os golpes sucessivos e a ausência de alternância na direção da entidade. “Se exigimos do setor público o fiel cumprimento de regras e leis, o exemplo tem de vir de casa: fazer jogadas para se perpetuar no poder é péssimo para a sociedade”, critica Roberto Giannetti da Fonseca, presidente da Kaduna Consultoria e ex-diretor de relações internacionais e comércio exterior da Fiesp.

Ainda segundo a reportagem, “a preocupação com a alternância diz respeito ao uso de entidades de categorias por interesses políticos. Candidato pelo PMDB ao governo de São Paulo em 2014, Skaf teve 4,6 milhões de votos e não esconde suas pretensões eleitorais. ‘Não é só a Fiesp que padece desse mal, mas usar instituições para alcançar cargos públicos acaba apequenando as que tiveram histórias fantásticas e fizeram muito pelo Brasil’, diz Giannetti. Críticos citam como exemplo a campanha ‘Não vou pagar o pato’, defendida pela entidade desde setembro de 2015, com a assinatura explícita de Skaf”.

Procurado pelo Estadão, o eterno presidente da Fiesp rejeitou o pedido de entrevista, mas tentou justificar suas ações em uma nota cínica. Argumentou que graças às campanhas da entidade, “mobilizamos a opinião pública e evitamos decisões relativas ao aumento de impostos, contrárias ao interesse geral”. Ele só não explicou porque a Fiesp não faz uma oposição tão ácida ao usurpador Michel Temer como fez contra a presidenta eleita Dilma Rousseff. Porque atualmente ela não convoca marchas ou usa o letreiro da sede na Avenida Paulista para atiçar os “coxinhas” – os verdadeiros patos otários e manipulados da Fiesp.

Sob o comando do ditador Paulo Skaf, a entidade foi uma das protagonistas do golpe dos corruptos que alçou a quadrilha de Michel Temer ao poder. Os dois pertencem ao mesmo partido, o PMDB, e estão metidos em várias denúncias de corrupção. O usurpador foi acusado pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, de ser o “líder da maior organização criminosa da história do país”. Já o “coronel” da Fiesp apareceu nas planilhas de propina de Odebrecht. Na sua delação premiada, Marcelo Odebrecht afirmou ter repassado R$ 2,5 milhões para a sua campanha ao governo de São Paulo. Mas os patos da Fiesp, incluindo vários donos de indústrias, parecem desconhecer estes fatos – ou são cúmplices dos corruptos.

Em tempo: Em meados de julho, após as críticas que recebeu de vários setores da sociedade, inclusive de alguns empresários menos covardes ou corruptos, Paulo Skaf até voltou a instalar o pato amarelo gigante na sede da Fiesp contra o aumento dos impostos sobre os combustíveis. Mas foi mais um gesto oportunista para enganar os otários. Dias depois, ele teve uma reunião reservada com Michel Temer. Possivelmente, os dois golpistas trataram das eleições de 2018. Segundo matéria da Folha, “Paulo Skaf é um dos principais aliados de Temer e nome do PMDB para a disputa do governo de São Paulo”. A quarta eleição consecutiva para a presidência da Fiesp visa servir exatamente a este propósito. A Fiesp virou um bordel e um palanque!

Doria, Bolsonaro e a marcha fascistoide


Por Aldo Fornazieri, no Jornal GGN. Do blog do Miro

Algumas pessoas de esquerda e democratas bem pensantes se apressaram em condenar a ovada que o prefeito João Dória recebeu em Salvador. Na verdade, os manifestantes soteropolitanos devem ser parabenizados, pois Dória merece ser alvo de muitas ovadas por ser um elemento provocador, desrespeitoso, estimulador do ódio, usando frequentemente uma linguagem e práticas que resvalam para a arruaça política. Dória precisa ser tratado como inimigo, já que ele trata as pessoas progressistas e de esquerda como inimigas.

O condoer dos progressistas com a situação de Dória mostra o quanto muitos setores de esquerda perderam a noção da luta política. Antes de tudo, note-se que ovadas são práticas de protesto recorrentes nas democracias. Para citar casos recentes, Emmanuel Macron foi atingido com um ovo na cabeça nas últimas eleições francesas, Marine Le Pen recebeu uma chuva de ovos e François Fillon foi enfarinhado. Níccolas Maduro também foi atingido por ovo nas últimas manifestações. Para lembrar outros casos aqui no Brasil, José Serra, Paulo Maluf, Marta Suplicy, Mário Covas e vários outros políticos também foram atingidos por ovos. Nessas ocasiões, ninguém fez tanta fumaça como está sendo feito agora com o prefeito bem-vivente dos Jardins.

Os progressistas condoídos parecem ser seguidores da moral dos evangelhos e dos pacifistas, bem assinalada por Max Weber: "se alguém te ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra", o "não resistas ao mal pela força" ou o pacifista que depõe as armas e as lança longe em respeito ao Evangelho. Em política, todas essas máximas expressam uma ética sem dignidade, como indica o sociólogo. É assim que hoje vemos progressistas dóceis, domesticados, sem virtù e sem coragem em face da virulência dos brutos, dos soberbos, dos violentos, dos pregadores do ódio, dos arrogantes e dos raivosos. Dória e Bolsonaro são dessa estirpe. Todos os estudos sobre o totalitarismo e o fascismo mostram que onde esses movimentos e líderes triunfaram, em grande medida, se deveu à covardia e à omissão dos democratas, dos liberais e dos progressistas.

A pregação da violência e do ódio por parte de Bolsonaro dispensa comentários, pois ele o faz de forma explicita, aberta e direta, galvanizando a simpatia de milhões de pessoas que perderam as esperanças nos partidos e nos políticos. Já, Dória, vai pela via da mentira, da sinuosidade e do cinismo, num jogo em que estimula a violência ao mesmo tempo em que imputa aos seus alvos a prática da violência, enquanto ele se apresenta como o pacifista, o educado, o civilizado. Basta ver os vídeos que gravou após a ovada para ver esse método tão praticado por movimentos totalitários, quanto por charlatões que enganaram suas vítimas em todos os tempos.

Após receber a ovada de militantes do PCdoB, Dória afirmou que aquela intolerância expressa o caminho do PT, de Lula e das esquerdas. Esta declaração é uma provocação clara. Nos dias seguintes se manifestou contra o ódio ao mesmo tempo em que chamava Lula de mentiroso e mandava os ativistas de esquerda para a Venezuela. Outras declarações de Dória: "É melhor ser um nada do que ser um ladrão como o Lula"; "Trabalho desde os 13 anos e o Lula nunca trabalhou. Vive às custas dos amigos". Afirmou várias vezes que visitaria Lula em Curitiba onde o petista estaria preso, provocou ativistas nas ruas e em eventos e recorre a uma linguagem de ódio e de exclusão. Tudo isto são formas de violência política que desencadeia mais violência política. Acrescente-se que Dória sequer tem respeito aos fundadores do PSDB, como demonstrou com FHC e outros, e está empenhado de corpo e alma na empreitada de traição a Alckmin, seu padrinho, na disputa pela candidatura presidencial.

Tal como a propaganda totalitária dava ênfase às supostas fundamentações científicas de seus argumentos, Dória confere status de infalibilidade aos métodos de gestão empresarial que estaria aplicando na Prefeitura. Ocorre que, tal como a cientificidade dos totalitários era falsa, a gestão empresarial de Dória também é falsa. A gestão Dória é uma montanha de mentiras. Quase todos os programas novos que anunciou são programas antigos que estavam em andamento, simplesmente rebatizados com nomes novos. A "Cidade Linda" é a maior das mentiras, assim como o João trabalhador, o João gari, o João varredor de ruas etc. São Paulo, como assinalaram alguns líderes tucanos, está abandonada, tem um prefeito que não prefeita, um gestor que só viaja pelo Brasil e pelo mundo, gastando o dinheiro dos cofres públicos para fazer proselitismo político e demagógico visando sua candidatura presidencial.

Basta ler as "Origens do Totalitarismo" de Hannah Arendt para saber a razão do sucesso de Dória junto à opinião pública. Esse sucesso conta com três pilares principais: 1) carência, descrença e desesperança das massas; 2) sua atomização e desinformação; 3) sua crença nas ficções criadas pelas mentiras da propaganda. O sucesso desses lideres e movimentos de viés totalitário e fascistizante antes de chegarem ao poder, se assenta, diz Arendt, "na sua capacidade de isolar as massas do mundo real".

Dória ou Bolsonaro, certamente, não seriam capazes de criar um regime totalitário no mundo de hoje. Mas o totalitarismo e o fascismo hoje se manifestam de outras formas, em ondas parciais, que envolvem vários aspectos da vida social e arrastam as pessoas para práticas nada democráticas mesmo que acreditem na democracia.

Esses líderes e movimentos, investidos de poder, se tornam perigosos. No passado praticaram à larga o terrorismo de Estado e o extermínio em massa. Dória se mostrou capaz de pequenas vilanias, praticando pogrons contra drogados e doentes e mandando jogar jatos de água fria, em pleno inverno, em moradores de rua.

Os bem pensantes progressistas e de esquerda pregam que é preciso reduzir o ódio e aumentar o diálogo, promover debates de alto nível. Sim, tudo isto é necessário, mas onde é possível e com quem é possível. Com Dória e Bolsonaro não é possível. Usar boas maneiras, oferecer a outra face, significa se deixar passar por cima por essas ondas protofascistas que estão vindo com força. Subestimá-las, representa um erro fatal. Convém lembrar que quase todos os líderes totalitários e fascistas foram subestimados no início de suas carreiras.

Para combater Dória e Bolsonaro é preciso entender o fenômeno que eles representam, compreender a especificidade de cada um e os seus métodos de fazer política e de se promover através da propaganda e das mentiras. Os progressistas e as esquerdas vêm colhendo derrotas e fracassos sucessivos. Poderão colher uma estrondosa derrota em 2018. Se é para ser derrotado, que o seja com luta, coragem e dignidade. Que não seja com o mi mi mi das boas maneiras para com quem as trata como inimigas. E se for para buscar a vitória, que se mudem os métodos, os discursos e os modos de agir e que se saiba quem são e como agem os inimigos.

* Aldo Fornazieri é professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).

Charlottesville é aqui: por que o brasileiro acha que é diferente do americano?

http://justificando.cartacapital.com.br/2017/08/14/charlottesville-e-aqui-porque-o-brasileiro-acha-que-e-diferente-do-americano/

Um país que perdeu o medo do ridículo, por Luis Nassif

http://jornalggn.com.br/noticia/um-pais-que-perdeu-o-medo-do-ridiculo-por-luis-nassif#.WZJq0qfJ-XE.facebook

Sim, o Brasil pode se tornar uma Venezuela

Por Eduardo Guimarães, no blog da Cidadania. Do blog do Miro. 
 
Não importa quantos fatos incontestáveis a gente mostre sobre a Venezuela, esse bando de energúmenos que se tornou especialista no país vizinho só por assistir a Globo se recusa a enxergar.

No último capítulo (no post anterior), esta página propôs a seguinte questão aos leitores: entre uma pesquisa usada por TODA A COMUNIDADE INTERNACIONAL como REFERÊNCIA para comparar a qualidade de vida entre os povos (O Relatório do Desenvolvimento Humano, apurado pelas Nações Unidas) e uma pesquisa desconhecida feita por grupos políticos venezuelanos, a qual delas você daria mais atenção?

A pesquisa usada pelo mundo para comparar os países diz que a Venezuela é um país de Alto Desenvolvimento e que a qualidade de vida por lá é melhor do que por aqui. Já a pesquisa desconhecida feita por adversários do governo Venezuelano que recebem financiamento em dinheiro dos Estados Unidos diz o contrário, que a Venezuela tem uma pobreza igual ou maior do que a de países miseráveis da África Subsaariana.

O fato é que apareceram pessoas que preferem acreditar na pesquisa fake. E não interessa quantos argumentos incontestáveis tecnicamente você possa apresentar: esses muares se recusam a aceitar todos eles sem se dignarem sequer a procurarem saber do que tratam.

Enquanto isso, todos os centros acadêmicos e de inteligência que não usam estatísticas ou jornalismo para fazer politicagem ideológica assistem, atônitos, à desinformação criminosa sobre o país vizinho.

Semana passada, o diário espanhol El País produziu uma reportagem instigante sobre a Venezuela. O mote, muito simples: “Por que, em Caracas, a maioria dos que protestam contra o empobrecimento não é pobre?”




Basicamente, a matéria mostra que o descontentamento com o governo vem sendo exponencialmente maior nas classes sociais mais abastadas, porque os problemas de abastecimento, a inflação etc. são compensados por programas sociais.

O que ocorre na Venezuela é uma decisão da elite local de não aceitar um governo que, em sua visão, gastava demais com o povo. Bem, a crise pôs fim nisso. O governo venezuelano não tem receita, a direita parou o país com os piquetes violentos que atraem a polícia e geram choques armados entre os dois lados.

Na Venezuela, há muito, impera a insensatez. Este blogueiro foi acompanhando o recrudescimento do ódio ano após ano. Faço isso desde 2002, quando presenciei, in loco, naquele país, uma tentativa de golpe que me impressionou com as medidas que foram tomadas pelos golpistas logo após julgarem que a derrubada do governo era irreversível.

Desde o segundo ano do novo milênio que esta página vem se referindo ao processo de “venezuelanização” do Brasil.

O mesmo ódio entre compatriotas que levou a Venezuela ao ponto em que está, germina no Brasil. Alguns choques entre “coxinhas” e “mortadelas” já se produziram, mas são esparsos. O grosso desse ódio fica na internet, nos bate-bocas entre valentões de teclado, via de regra anônimos que se aproveitam da facilidade de não terem que responder por seus atos para cometer crimes contra a honra.

Mas, como na Venezuela, esse ódio só faz crescer no Brasil. E, em algum momento, a violência retórica da internet começara a se materializar nas ruas.

Na verdade, nos dois anos anteriores o conflito político-ideológico veio sendo inflamado pela seletividade política da Lava Jato e da Mídia, mas não gerou embates críticos porque o lado alvejado pela seletividade jurídico-midiática se desorganizou no âmbito do golpe contra Dilma Rousseff.

Muita gente boa embarcou na discurseira midiática e dos “vingadores” do judiciário, do MP e da PF. Mas essas pessoas começam a acordar.

Nada como o sofrimento – no caso, via empobrecimento acelerado em curso no Brasil – para chamar as pessoas à luz da razão. Por esse motivo que Lula cresce sem parar nas pesquisas.

A direita ainda está muito mais forte. Além de ter o poder de Estado, a mídia e o capital, enfrenta um adversário fragmentado e desorientado pelo golpe, mas que já começa a se rearticular.

E isso não é necessariamente bom. Em algum momento, os abusos da direita – como esculachos de pessoas de esquerda por pessoas de direita em restaurantes etc. – vão começar a gerar reações.

Tudo que os dois lados precisam é de um cadáver. Se um lado se exaltar demais e tirar a vida de alguém, o outro lado vai reagir pela lei de talião e a venezuelanização do país mudará de patamar.

Quem vai fazer isso acontecer não será a esquerda. Foi a direita que se vestiu de golpista e decidiu esmagar quem pensa diferente.

As reformas temerárias deverão providenciar o componente final dessa sopa de ódio que está cozinhando em fogo brando há mais de uma década. A perda de poder aquisitivo que a reforma trabalhista e a terceirização vão gerar colocarão uma parcela mais substanciosa da população a se revoltar.

Menos mal será se a direita for derrotada na eleição presidencial de 2018. Sempre digo que Lula funcionou, no Brasil, como algodão entre cristais. Se não tivesse assumido a Presidência em 2003 e diminuído as tensões sociais com redução da pobreza e da desigualdade, o Brasil teria explodido.

Essas tensões voltam a se acumular graças à decisão clara dos golpistas de tirarem dos pobres o que ganharam nos governos do PT e devolver aos ricos – com juros bem altos, claro, que ninguém é de ferro.

Sim, os golpistas estão transformando o Brasil em uma Venezuela, mas não do ponto da justiça social e, sim, do ponto de vista do clima de ódio entre esquerda e direita.

Vejam o que faz João Doria. Não mede esforços para provocar a esquerda, com vistas a afagar o eleitorado fascista. Corre na mesma raia que Jair Bolsonaro. Disputará a extrema-direita com ele em 2018 – Doria deve ser candidato a presidente mesmo que não seja pelo PSDB.

Esse exemplo de insensatez de gente como Doria ou Bolsonaro, que ficam acirrando os ânimos, pondo lenha na fogueira para lucrar politicamente foi o que fez a Venezuela explodir. Hoje, qualquer discussão sobre política no meio da rua pode terminar em tiroteio.

O povo brasileiro precisa refletir sobre esse clima de ódio. É nesse tipo de Venezuela que o Brasil pode se transformar. Infelizmente, não será no tipo de Venezuela que acabou com o alfabetismo, reduziu drasticamente a pobreza até 2013 e fez o povo progredir como jamais progredira em cinco séculos de história.

Abre o olho, Brasil. Abram os olhos, golpistas. Vocês podem estar colocando na boca muito mais do que conseguirão mastigar e engolir.