sábado, 23 de fevereiro de 2013

PSICOLOGIA DE BARBEARIA


Frei Betto



      Ignoro se alguém,  psicólogo ou cientista social, já se deu ao trabalho de investigar a  psicologia dos salões de barbearia. Da infância à adolescência, frequentei o  salão do Vicente, no bairro Savassi, em Belo Horizonte.  
      Estará vivo o  Vicente? Figura! Alto, atlético, moreno, exalava sempre sorrisos e paciência.  Estendia uma tábua entre os braços da cadeira (forrada de couro verdadeiro!),  de modo a aproximar a cabeça da criança de sua ágil tesoura.  
      Meus irmãos mais  novos deixaram o cabelo aos cuidados do Pedrinho, na rua Major Lopes (a dois  quarteirões da casa da Dilminha, hoje presidente). Vicente fincou pé no mesmo  salão da rua Pernambuco. Pedrinho, empreendedor, de fio em fio criou uma teia  de barbearias, com cadeiras temáticas para os meninos se sentirem pilotando um  carro de Fórmula 1 ou um batmóvel.
      Conversa de  barbearia de adultos é sempre amena. Todo barbeiro é um conciliador nato. Voz  pausada, enquanto faz correr o pente, dançar a tesoura ou escorregar a  navalha, vai tirando do cliente comentários e confidências.  
      Vai chover, diz o  da barba. É, pelo jeito vem água aí, murmura o profissional com o pincel de  barba à mão. Em seguida, senta o sitiante para aparar as costeletas: Já não há  quem aguente essa seca. Pelo jeito, tão cedo não cai um pingo d’água. Com  navalha afiada o barbeiro reduz dois centímetros da costeleta, e concorda: Lá  onde moro logo logo vai faltar água até pra beber.
      Não é nada fácil  descobrir duas coisas em barbeiro: time para o qual torce e preferência  partidária. Tomou assento o cabeludo, agasalhado pelo camisão impecavelmente  branco, diga o que disser o profissional jamais o contestará.  
      Nunca vi  quebrarem o pau numa barbearia por discordância política. Felizmente,  considerando a profusão de navalhas e tesouras em volta! Futebol é a mesma  coisa: o barbeiro quase sempre torce pelo time do cliente. Você tem razão, o  Corinthians se precipitou ao comprar o Pato. É, doutor, nós santistas  ficaremos na pior no dia em que venderem o Neymar!
      Um comentário  aqui, uma observação ali, e o papo segue enquanto a chuva de fios depenados  escurece o camisão.
      Há outra  dimensão, esta sim, prato cheio para os psicólogos. É a secreta motivação que  leva muitos clientes à estofada cadeira móvel. Tive um vizinho que todas as  manhãs entregava o rosto no salão da esquina. Perguntei-lhe um dia se a  preguiça o impedia de cuidar da própria barba. Bem casado, pai de uma trinca  de filhos, não escamoteou: Vou ao salão porque me faz bem o carinho do  barbeiro. E não me leve a mal, frisou. Aquelas mãos suaves, a nuvem de creme  suscitada pela dança do pincel, o perfume, tudo me faz lembrar o tempo de  menino, quando meu avô me punha no colo e, com as costas das mãos, me  acarinhava o rosto. Que mulher tem paciência de uma coisa  dessa?
       Outro amigo, careca a reluzir, apenas uns fiozinhos estendidos entre as  orelhas a na nuca, me confidenciou quando indaguei por que frequentava o salão  toda semana: Gosto de sentar na cadeira, sentir-me abraçado pelo camisão  branco, percorrer os olhos em revistas antigas, escutar o leve ruído metálico  da tesoura surpreendendo um fio aqui, outro ali, a extremidade do couro  cabeludo acertada pela navalha e, por fim, o espanador de pelos e o borrifar  da água de colônia...
      Quem tem grana ou  prestígio se dá o luxo de convocar barbeiro a domicílio. Lembro de um deputado  que, sentado à varanda, entregue ao corte, revestido de tantas toalhas que  mais parecia uma noiva gorda, insistia, a todo momento, em interromper a dança  do pente e da tesoura para falar ao telefone, cujo fio se estendia desde a  sala de visitas.
      Um dia, irritado,  o barbeiro, sem querer, feriu de leve sua excelência e foi despedido no ato.  No mês seguinte, foi chamado à casa do parlamentar. Relutou. O cliente veio ao  telefone, pediu desculpas e dobrou o valor a pagar.
      Doutor, eu volto,  disse o profissional, mas com uma condição: nada de telefone. O deputado  consentiu. Em meio ao trabalho, o barbeiro perguntou por que havia sido  chamado de volta. Ora, admitiu o político, tenho uma imagem a preservar e  ninguém deixa o meu cabelo tão de acordo comigo mesmo como  você.
      É  isso: muitos clientes mantêm fidelidade capilar a um barbeiro, como um cão a  seu dono. Tudo porque barba e cabelo são as únicas coisas que, com frequência,  mudam onde reside o centro de nossa identidade: no rosto. Uma brusca mudança  num ou noutro causa sempre estranhamento.


Frei Betto é escritor, autor do romance “Minas do  Ouro” (Rocco), entre outros livros.

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