quarta-feira, 10 de abril de 2013

FALCÕES E INFLAÇÃO NO CÉU DO BRASIL

Clemente Ganz Lúcio[1]

Será uma semana quente no debate econômico com os resultados da inflação de março. Os falcões do rentismo farão voos rasos anunciando o descontrole inflacionário. Ganhar o debate faz parte da estratégia para obrigar o Banco Central a mudar o rumo da política monetária, aumentando a taxa básica de juros da economia. Cuidado! Muita opinião publicada na forma de ciência tem uma intenção encoberta de garantir os ganhos financeiros dos endinheirados e os bônus dos operadores do sistema.

Estamos no jogo, sofrendo pressão severa com risco de tomarmos um gol! Três bolas na trave em um único lance! Qual é o jogo?

O sistema financeiro faz apostas ao vender uma rentabilidade no futuro àqueles que detêm capital líquido, ou seja,  dinheiro aplicando na expectativa de taxa de retorno, juros ou dividendos. Se a taxa de inflação “sai do rumo” é preciso trazê-la para o centro da meta e garantir os ganhos projetados.

A missão do BC ao atuar no controle da inflação não deveria estar associada ao objetivo acima, mas sim o de proteger o valor da moeda como parte de um equilíbrio que sustente o crescimento e o desenvolvimento.  Nesse sentido, o controle da inflação atua combinado com as demais medidas macro econômicas que promovem o desenvolvimento.

A luta interna contra a inflação não está concluída, seja porque ainda um terço dos preços tem alguma forma de indexação, seja porque a superação das desigualdades econômicas exigirão mudanças e acomodações dos  preços relativos para a superação das mazelas que existem.

E qual é a grande arma de que dispõem o BC para controlar a inflação? Juros! O que significa pisar no freio da economia, restringido o crescimento e, pela desaceleração da atividade econômica, conter renda com o desemprego, restringindo aumentos salariais e inibindo a voracidade dos empresários em reajustar preços. Ao aumentar os juros, retira da economia real o dinheiro da produção e do consumo, deslocando-o para a aplicação financeira e tornando mais caro o seu custo. Trava a economia, que fica desaquecida e, com um custo social e econômico elevado, traz a inflação para baixo, pois as empresas demitem, os salários caem, as empresas fecham, o consumidor não compra e os preços de uma economia real deprimida, caem.

A inflação é uma devoradora do poder aquisitivo dos salários. Mas o desemprego é uma tragédia para a vida. E mais, uma economia que usa esse remédio extremamente amargo pode levar anos para se recuperar. Uma tragédia social! Portanto, há que achar caminhos de eficácia diferente para controlar a inflação.
De fato a inflação está mais alta nos últimos meses, especialmente pela pressão dos preços de alimentos decorrentes de choques de oferta (queda na produção ou quebra de safra), ou pelo reajuste de preços internos sem concorrência (saúde, educação ou transporte público), ou ainda pelo reajuste de serviços e do combustível. Em março o tomate, o feijão e os planos de saúde foram os vilões da inflação (veja no site do DIEESE –www.dieese.org.br - as divulgações da Cesta Básica e do ICV). Isso ocorre apesar das medidas que aliviaram preços e custos como, por exemplo, a desoneração da energia elétrica ou da cesta básica. A meta de taxa de inflação para 2013 é de 4,5%, podendo variar entre 2,5% a 6,5%. Esse intervalo visa absorver mudanças de preços relativos de diferentes choques e acomodar no longo prazo os efeitos distributivos.

Na próxima semana o Banco Central analisará o cenário atual e definirá sua atuação para o próximo período. A questão da inflação estará no centro do debate.

Deve-se estar atento para a disputa em curso, orientados pela perspectiva de sustentar a estratégia de desenvolvimento de longo prazo. Neste sentido, é fundamental que o país melhore a capacidade de investimento em infraestrutura social e produtiva, amplie a capacidade produtiva das empresas e organize uma moderna política de desenvolvimento industrial. Pisar no freio da economia neste momento poderá desmobilizar esse sentido estratégico, ainda mais que agora engatilhamos uma saída do baixo crescimento recente (0,9% PIB de 2012).

Então, o que fazer com a inflação? Muita cautela. Até porque a liquidez que cresce no mundo (muito dinheiro para animar as economia deprimidas) exigirá muita competência da politica econômica para conduzir nossa economia. Algumas tarefas que deveríamos enfrentar: (a) desmontar os mecanismos de indexação ainda existentes na economia; (b) ampliar a capacidade de formação de estoques reguladores de oferta alimentos; (c) sofisticar o debate público sobre o núcleo da inflação; (d) ampliar a capacidade de oferta que sustente o aumento da demanda pelo emprego e pela renda; (e) investir no aumento da produtividade, (f) garantir oferta interna de combustível e energia.



 

[1] Sociólogo, diretor técnico do DIEESE, membro do CDES – Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social e do Conselho de Administração do CGEE – Centro de Gestão e Estudos Estratégicos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário