sábado, 4 de maio de 2013

O BRASIL, O MÉXICO E A OMC.


(JB)-O Brasil disputa com o México a presidência da Organização Mundial do Comércio, com candidatura do Embaixador Roberto Azevedo, em momento difícil: os Estados Unidos decidiram buscar, no país vizinho (ao qual se encontra condenado viver geograficamente unido) um aliado preferencial. Embora, aparentemente, um fato possa parecer menor diante do outro, a viagem de Obama se estende à América Central, e não deixa de ser um sinal de seu apoio ao nosso adversário, Hermínio Blanco, do PRI - historicamente ligado a Carlos Salinas de Gortari, o mais corrupto dos presidentes mexicanos do século 20. É bom lembrar que, ao deixar o governo de seu país, em 1994, Gortari pretendia eleger-se presidente da mesma OMC.
              A eleição para a OMC está marcada para o fim deste mês, mas é provável que a decisão seja conhecida muito antes: conforme Keith Rockwell, porta-voz da entidade, não se tratará de uma eleição propriamente dita, mas, sim, de uma “seleção”.
                É ainda mais estranha a candidatura do México, uma vez que a sua participação no comércio internacional se restringe aos Estados Unidos, de que passou a ser, a partir do Nafta, um estado apêndice: oitenta por cento das exportações do país se dirigem ao vizinho do Norte, assim como 40% das exportações dos Estados Unidos se fazem para o México.
             Não há motivos para o espanto: o México é uma vasta oficina de montagem de produtos norte-americanos que, acabados, devem voltar às empresas ianques. O trabalho dos mexicanos, mal remunerado, é reexportado ao resto do mundo. A mais-valia clássica, produto dessa exploração, é                   incorporada aos produtos norte-americanos. Isso explica  o expressivo comércio bilateral.
                Segundo artigo de Andrés Peñalosa, divulgado nas últimas horas, Hermínio Blanco é candidato dos grandes banqueiros e empresários mexicanos, que expressaram seu entusiasmado apoio em uma reunião realizada em Acapulco, há poucos dias. A cidade é considerada capital do narcotráfico no País, e Blanco chegou a ser acusado de “lavar” dinheiro das drogas. Os seus promotores, junto à OMC,  são ligados, pela vida inteira ao PRI, e, em sua maioria, foram beneficiados por Gortari, que lhes entregou as grandes estatais mexicanas.
              Blanco conta com o apoio já declarado dos Estados Unidos e da União Européia. O Brasil aposta no apoio de alguns dos países asiáticos, dos Brics, de grande parte dos países africanos e de seus vizinhos da América do Sul, embora seja provável que o bloco do Pacífico (Colômbia, Peru e Chile) fique com o seu sócio mexicano, e com a Espanha, patrocinadora dessa cunha divisionista em nosso continente.
              A visita de Obama ao México, que se iniciou ontem, é curiosamente  vista com pessimismo pela imprensa americana (a partir do New York Times), e com todo o entusiasmo pró-ianque pelo El País, de Madri.
           Os norte-americanos sabem que, desde a guerra de Polk contra o país de 1846 a 1848, quando os mexicanos perderam quase a metade de seu território, há um sentimento atávico de rejeição aos gringos. A expressão surgiu na própria guerra, porque as tropas americanas avançavam cantando velha balada do folclore britânico, em que se destacava o verso the “green grass” grows o'er him so very, very high. E o  povo mexicano sabe que os norte-americanos querem transformar em jurídicas, as relações de comando norte-americano que já existem de fato, ao propor o controle oficial, pelas suas agências repressivas, do tráfico de drogas.
      Ora, há indícios fortes de acordo secreto entre o novo governo do PRI e os narcotraficantes: o Exército reduziu de 50.000 a 32.000 os efetivos empregados no combate ao comércio de drogas, e essa redução ocorreu também entre os efetivos policiais. Obama, conforme o maior jornal dos Estados Unidos, será bem recebido e obterá promessas, mas não se espera que o projeto jurídico de ampliação do império  sobre o México venha a concluir-se.
      O Brasil vem atuando com prudência diplomática na defesa da candidatura de Roberto Azevedo, a fim de não a vincular aos países emergentes, mas sim de assegurar equilíbrio ao sistema comercial do mundo. Não será fácil vencer os adversários, mas não se trata de uma tarefa impossível.   

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